A persistente maré de dificuldades vivida por agricultores, agravada pelo conflito no Oriente Médio, faz osbancosprivados trabalharem com perspectivas conservadoras para 2026. Carteiras de agro, incluindo linhas de crédito reguladas pelo governo e as de mercado, devem crescer pouco ou nada neste ano. Executivos do Santander, Itaú BBA e Bradesco estão mais focados em conceder “crédito melhor” e em apoiar produtores que enfrentam a turbulência do endividamento.
“O mercado não está melhor: não diminuiu o número de RJs [recuperações judiciais], de gente apertada, nem a taxa de juros. A única coisa que aconteceu é que tivemos duas safras recordes, então o dinheiro girou”, disse aoValoro diretor de Agronegócios do Santander, Carlos Aguiar. “Todo o mercado está mais ajudando o produtor da mão para a boca do que aumentando carteira.”
Aguiar prevê encerrar 2026 com uma carteira em linha com a do ano passado, da ordem de R$ 50 bilhões. Mas, se considerada a inflação, o mercado está “se retraindo”, afirma ele.
O diretor de Agronegócios do Bradesco, Roberto França, mantém para a carteira de agro o guidance para a carteira geral do banco, de alta de 8,5% a 10,5% no ano, segundo seu último balanço. A carteira ampliada agro do Bradesco passou de R$ 130 bilhões em 2025. O Itaú BBA também espera crescimento de sua carteira agro, na faixa de 10% sobre os R$ 135 bilhões do ano passado, conforme o diretor de Agronegócios, Pedro Fernandes.
Já oBanco do Brasilprevê aumento de 2% ou queda de 2%. Na sexta-feira, em evento con investidores, executivos do banco público reforçaram que 2026 não será fácil e que a recuperação do setor pode ocorrer com altos e baixos.
Mesmo Bradesco e Itaú BBA, que trabalham pelo leve crescimento de suas carteiras, não falam em melhora do quadro para os produtores, seja em rentabilidade ou acesso ao crédito. Algumas causas são conhecidas: custos mais altos da safra 2026/27 de grãos, câmbio que traz menor receita em reais a exportadores, margens de lucro dos produtores comprimidas e “dissabores” trazidos pela guerra no Oriente Médio, como menor disponibilidade de fertilizantes.
Esse cenário preocupa especialmente por suceder “anos” de margens “medianas para baixo”, que dificultam a amortização de parcelas e novos investimentos, diz Fernandes. Se hoje a margem média do produtor está entre 10% e 15%, quem deve o equivalente a seu faturamento anual e tem de pagar juros de 20% está tendo retorno menor do que o juro devido, pondera Aguiar.
França acrescenta que o custo médio da dívida também aumentou pois produtores têm se financiado menos com o Plano Safra, em virtude do limite por tomador e de maiores exigências, inclusive ambientais. Além disso, grandes operadores docrédito rural, como o BB, ficaram mais “conservadores” dada a inadimplência.
Para manter o atendimento ao setor nesse cenário,bancosestão adaptando estratégias. No Santander, a equipe tem gasto mais tempo buscando soluções para quem precisa refinanciar dívidas e não busca recuperação judicial, com alongamento de dívida e, dependendo das garantias, “dinheiro novo”, diz Aguiar.
O Bradesco tem focado em conceder crédito de “melhor qualidade”, a produtores menos endividados e com garantias mais robustas, como alienação fiduciária (transferência temporária de um bem ao credor).
Nos trêsbancos, a expectativa é de crescimento da participação do crédito para custeio da safra, com vencimento em um ano, e redução das concessões para investimentos, de mais longo prazo, dada a alta taxa de juros.
Agrishow
Essa tendência deve ser observada naAgrishow, ainda que, diferentemente de outras feiras organizadas por cooperativas onde produtores compram mais insumos, esta seja focada na venda de maquinário. Isso porque a compra da máquina muitas vezes se dá para viabilizar a expansão de área. Contudo, com o endividamento e custos altos, produtores têm cogitado manter a área plantada ou até reduzir às porções mais produtivas da fazenda, segundo os executivos.
Aguiar prevê ao redor de R$ 1 bilhão em negócios naAgrishow, semelhante ao do ano passado. O Bradesco também chega à exposição buscando resultado similar ao de 2025. O Itaú BBA não faz projeção por não ter ações focadas no evento. O BB estima receber R$ 3 bilhões em propostas, 37% menos que em 2025.
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