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Carne de Chernobyl? Há 40 anos, carga importada gerou temor de contaminação no Brasil

calendar_month 04/05/2026
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Carne de Chernobyl? Há 40 anos, carga importada gerou temor de contaminação no Brasil

Crédito da imagem: Reator da usina de Chernobyl explodiu na madrugada de 26 de abril de 1986 — Foto: USFCRFC/IAEA Imagebank

Na madrugada de 26 de abril de 1986, uma explosão no reator da usina de Chernobyl, na Ucrânia, provocou o pior acidente nuclear da história. O número de mortes é alvo de controvérsia, mas sabe-se que milhares de pessoas foram contaminadas. O território pertencia à antiga União Soviética (URSS), e o caso é frequentemente apontado como fator-chave na dissolução do bloco socialista.

No Brasil, os ecos do desastre culminaram em um episódio que até hoje desperta dúvidas e povoa o imaginário de quem viveu a década de 1980.

No ano passado, o Brasil se tornou o maior produtor mundial decarne bovina. Porém, há 40 anos, o cenário era bem diferente: o país estava longe de ser autossuficiente, e dependia em grande parte das importações. Vivia-se os primeiros meses do Plano Cruzado, lançado pelo presidente José Sarney para conter a hiperinflação. O cenário era de desabastecimento.

Porém, com a explosão de Chernobyl, aimportaçãode carne do continente europeu deixou os consumidores desconfiados de que o produto pudesse estar contaminado. Manifestações contrárias às importações foram realizadas por entidades da sociedade civil, e o assunto recebeu ampla cobertura da imprensa. No Rio Grande do Sul, cerca de 7.000 toneladas de carne bovina importada foram embargadas pela Secretaria Estadual de Saúde.

O então ministro da Justiça, Paulo Brossard, determinou que a Polícia Federal fizesse uma investigação técnica sobre as condições de consumo do produto, o que viria a acontecer em 1988. A carne encontrava-se estocada na antiga Cibrazem (Companhia Brasileira de Armazenagem, posteriormente incorporada à Conab), em Canoas (RS), na Região Metropolitana de Porto Alegre.

A comissão encarregada de fazer a análise das amostras era composta por quatro especialistas, entre eles um professor da Universidade de São Paulo (USP), hoje com 90 anos.

"Não foi detectado nada de anormal. A carne estava própria para o consumo", recorda Epaminondas Sansigolo de Barros Ferraz, na época professor titular da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP) e pesquisador do Centro deEnergiaNuclear na Agricultura (Cena/USP), em Piracicaba (SP). Os detalhes daquele dia permanecem vivos na memória do especialista.

Reator da usina de Chernobyl explodiu na madrugada de 26 de abril de 1986 — Foto: USFCRFC/IAEA Imagebank
Reator da usina de Chernobyl explodiu na madrugada de 26 de abril de 1986 — Foto: USFCRFC/IAEA Imagebank

No dia da inspeção, a imprensa foi convidada a acompanhar a atividade. As baixas temperaturas dentro do frigorífico exigiam que todos trajassem grossos sobretudos. A carne encontrava-se congelada a cerca de 15 graus abaixo de zero.

"Pedi a colaboração das repórteres presentes e sorteamos três delas. A função delas era a de escolher, aleatoriamente, as peças que seriam analisadas. Cada uma escolheu uma peça da pilha de carcaças. De cada uma escolhida tirou-se uma amostra de cerca de quatro a cinco quilos. As amostras foram analisadas separadamente, seguindo as normas estabelecidas", recorda Ferraz, 40 anos depois.

Segundo o professor aposentado, cada carcaça possuía uma etiqueta, onde era possível visualizar algumas informações. Desta forma, de acordo com ele, foi possível observar que a carne havia chegado ao Brasil antes do acidente na usina de Chernobyl.

Ferraz lembra que o produto importado não tinha aspecto anormal. "A carne era muito boa. Quando terminamos o trabalho, fizemos um churrasco para os nossos funcionários", recorda.

O laudo de análise, assinado no dia 9 de março de 1988 por quatro especialistas, afirmava:

"As amostras pertencentes aos lotes de carne bovina importadas, já identificadas, de origem italiana e francesa e pertencentes ao estoque regulador da Cobal, armazenadas no Rio Grande do Sul, não apresentam indícios de contaminação radioativa artificial".

Por sua vez, amostras decarne suína, de origem dinamarquesa, "apresentaram traços de Césio 137, embora abaixo do limite de detecção", segundo o relatório.

Além de Ferraz, assinaram o laudo os especialistas Nelson Massini (Unicamp), Badan Palhares (Unicamp, que ficaria famoso ao atuar no caso do assassinato de PC Farias) e Haroldo Lessa Azevedo (Instituto de Radioproteção e Dosimetria do Rio de Janeiro).

Amostras não apresentavam indícios de contaminação, segundo relatório — Foto: Arquivo Nacional / reprodução
Amostras não apresentavam indícios de contaminação, segundo relatório — Foto: Arquivo Nacional / reprodução

Impasse na Justiça

Embora análises técnicas tenham apontado ausência de contaminação relevante, a liberação do produto acabou sendo barrada. A comercialização foi interrompida por decisão judicial, em meio a dúvidas sobre os riscos sanitários e à forte repercussão pública do caso.

O impasse impediu a distribuição da carne no mercado interno e prolongou o armazenamento do produto, que acabou sofrendo deterioração ao longo do tempo.

Anos depois,em 2014, a Conab foi condenada a pagar cerca de R$ 460 mil a um ex-empregado que informou ter sido contaminado pela radiação enquanto trabalhava na empresa.

O homem fazia a manutenção das câmeras frias entre 1988 e 1990 e alegou que, por ter de entrar nas câmaras frias todos os dias, desenvolveu tumor maligno na tireóide, disfunção erétil, câncer maligno na cabeça e linfoma perto dos pulmões.

Caso foi objeto de disputas na Justiça — Foto: Arquivo Nacional
Caso foi objeto de disputas na Justiça — Foto: Arquivo Nacional

Brasil produzia pouco e importava muito

Estagiário da indústria frigorífica na época, o médico veterinário Júlio Barcellos lembra de ter visto chegar as carcaças protegidas por uma película, contendo uma carne "acinzentada e congelada". "Dada a proximidade da usina de energia atômica, se dizia que era uma carne de Chernobyl. Era uma simbologia", recorda.

Hoje coordenador do Núcleo de Estudos em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e Cadeia Produtiva da Carne (Nespro), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Barcellos ressalta que na época o Brasil era um importador líquido de carne bovina, com baixa produtividade e má distribuição do produto no território nacional.

"No Plano Cruzado, havia a 'caça' ao boi de helicóptero, porque a carne vinha subindo muito", observa o professor, referindo-se à estratégia adotada na época pelo governo federal, que acusava os pecuaristas de não enviar os animais para o abate de forma proposital.

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"Nós tínhamos safra e entressafra. Na safra, os frigoríficos brasileiros abatiam muito boi e guardavam a carne em câmaras frigoríficas como carne congelada, financiados pela Companhia Brasileira de Alimentos (Cobal). E aí a pecuária brasileira encontrou uma grande oportunidade para abastecer o mercado interno", complementa Barcellos.

O crescimento da produção, na época, deveu-se em grande parte à criação de gado no Centro-Oeste, na carona da agricultura e da migração territorial das regiões Sul e Sudeste, observa o especialista.

Em 1986, Brasil vivia o Plano Cruzado, com congelamento de preços — Foto: Agência O Globo
Em 1986, Brasil vivia o Plano Cruzado, com congelamento de preços — Foto: Agência O Globo

Episódio marcou transformação

O caso conhecido como "carne de Chernobyl" marcou um paradigma na produção brasileira de carne bovina. Em 40 anos, o país passou de grande importador para maior exportador mundial do produto.

Em 2025, o Brasil superou os Estados Unidos e se tornou o maior produtor mundial de carne bovina, ao alcançar 12,4 milhões de toneladas, segundo o Departamento de Agricultura dos EUA (Usda, na sigla em inglês). A carne brasileira foi exportada para 177 países durante o ano passado.

O presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), Roberto Perosa, concorda que o país viveu nas últimas décadas uma transformação estrutural profunda na pecuária.

Mas, segundo ele, a "virada" resultou não apenas de um episódio isolado, mas de um conjunto de fatores que inclui investimento em tecnologia, expansão de produtividade, organização da cadeia e inserção estratégica no comércio internacional.

"Hoje, o Brasil é o maior exportador mundial de carne bovina porque construiu competitividade ao longo do tempo, com escala, eficiência produtiva e presença em múltiplos mercados. Essa trajetória não foi circunstancial; foi construída com planejamento e evolução contínua do setor", resume o dirigente.

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