Rádio Guaçu de Toledo

Fim da cota chinesa apertará ainda mais as margens de frigoríficos

calendar_month 25/05/2026
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Fim da cota chinesa apertará ainda mais as margens de frigoríficos

A ausência temporária da China nas compras de carne bovina brasileira, após o preenchimento da cota imposta pelo país asiático, deve mexer com os planos dos frigoríficos nacionais e impactar, em maior ou menor grau, suas margens. A expectativa é que a cota de 1,1 milhão de toneladas com tarifa de 12% seja preenchida até julho. Assim, depois desse prazo, as vendas serão fora do limite, com imposto extra de 55%.

Executivos de empresas exportadoras, ouvidos pelo Valor durante a Sial China, em Xangai, na semana passada citaram a necessidade de realizar ajustes pontuais nas operações das plantas para se adaptar ao momento. Isso porque, além da salvaguarda chinesa, o segmento é afetado pela queda do dólar, pela cotação da arroba do boi em alta e custos elevados.

A China é o maior cliente da carne bovina brasileira e, sem ela, a receita do segmento pode recuar em 2026. Mas não há sentimento de terra arrasada. A expectativa é que a indústria aproveite alternativas de novos canais de escoamento, sem cortes abruptos na produção, e consiga reduzir gradativamente sua exposição ao mercado chinês.

A expectativa da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) é que os embarques à China serão interrompidos entre julho e outubro, por conta da previsão de preenchimento total da cota com as cargas enviadas até o fim de junho.

“Vamos ter nesses meses um momento com algumas chuvas e trovoadas, mas o setor está muito estabilizado, e todos já estão preparados para isso”, avaliou Marcos Alexandre Domingues, presidente da Iguatemi Foods.

Luciano Pascon, CEO da Frigol, quarta maior indústria de carne bovina do país, com faturamento de R$ 4,5 bilhões em 2025, disse que não existe receita única para remediar a situação, mas descartou crise mais acentuada no setor. “Vai ter demanda extra e vamos continuar vendendo. Não vejo o setor desabando, pois tem capacidade de produção e de entrega e há demanda mundial”, afirmou.

Ele admitiu, porém, incertezas maiores a partir do fim de julho, mês que deverá ser bastante “confuso” com ajustes e acomodação na indústria.

A empresa vem trabalhando para reduzir a exposição à China. O país já respondeu por 70% das vendas e em 2025 foi de 42%. O mercado interno será mais forte em 2026 e também há ampliação de envios para outros destinos. A empresa não pensa em reduzir abates agora, mas “encontrar oportunidades de comercializar melhor a produção”, disse Pascon. Para o Brasil, a empresa aposta em ampliar linhas especiais no varejo, com maior agregação de valor ao produto.

“Este ano será um laboratório para nós e para os chineses”, disse Flávio Silva, gerente de exportação da Masterboi, empresa que tem plantas no Pará, Maranhão, Tocantins e Pernambuco. A China representa 40% do volume exportado pela empresa. Mesmo assim, não há perspectiva de interromper a produção neste momento.

Segundo Silva, a empresa buscará todas as frentes para aumentar vendas para canais alternativos e redistribuir volumes.

O mercado interno será o principal foco para absorver parte do impacto da ausência chinesa, mas sem a mesma rentabilidade. Como as peças consumidas pelos brasileiros não são as mesmas, deverá ocorrer um ajuste para cima no preço dos cortes para churrasco no Brasil, cuja demanda vai aumentar com a Copa do Mundo e com o giro maior de dinheiro na economia nas vésperas das eleições. O repasse será para compensar a queda do faturamento com o dianteiro que era exportado para a China.

A avaliação geral é de que a arroba do boi deve cair em algum momento ao longo do ano. Mas na última semana, as notícias sobre negociações com Pequim para flexibilizar as cotas levaram pecuaristas a reduzir vendas, relataram frigoríficos.

"Vamos ter nesses meses um momento com algumas chuvas e trovoadas, mas o setor está muito estabilizado, e todos já estão preparados” — Marcos Alexandre Domingues, presidente da Iguatemi Foods.

Pedro Bordon, CEO da Estrela Alimentos, disse que o segundo semestre é mais imprevisível, mas que a empresa tem antecipado algumas travas, como do dólar e do boi, para garantir rentabilidade nos negócios em busca de um “ponto de equilíbrio”. A companhia, que tem produtos industrializados em 15 mil pontos de venda do país, aposta em uma saída mais forte desse portfólio no mercado interno no segundo semestre .

“Temos sido muito conservadores e pragmáticos, tentando diminuir ao máximo a nossa exposição. Não estamos contando com o imponderável, protegemos o resultado”, resumiu.

O aperto nas margens deve afetar empresas de todos os portes. “Frigorífico voltou a ser o que sempre foi: margens baixas. Frigorífico não aceita desafios. Não dá para dever muito, tem que ter caixa forte, essa é nossa cultura. Vamos passar o ano com margens baixas, não acredito em nenhuma revolução”, disse Pedro Emílio Franco Prado, CEO da Plena Alimentos.

Fabrizzio Capuci, diretor-executivo da Naturafrig, que tem indústrias em São Paulo, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, avalia que deve haver um período de ajuste de 30 a 40 dias assim que a cota chinesa for atingida. Ele não pensa em reduzir abate, alternativa vista como onerosa dada a estrutura da operação e contratos com fornecedores. A companhia abateu 750 mil cabeças em 2025 e espera aumentar o ritmo em 10% neste ano.

“Vai ter ajuste de preço da commodity, vamos sair buscando outros canais de venda nesses 40 dias e tentar repassar custo”, afirmou. O principal desafio de 2026 é a originação de animais, disse ele.

Historicamente, a China representa 70% das exportações da Naturafrig. Neste ano, com redirecionamento estratégico, o percentual cairá para a casa dos 40%. No segundo semestre, a carne vai abastecer destinos como Brasil, EUA, Chile, Uruguai, Argentina, Emirados Árabes Unidos e outros países da Ásia. “Vai ser um ano ainda positivo para o setor da cadeia da carne bovina se comparar com outros segmentos do agro, que sofreram com endividamento, clima e custos”, completou Capuci.

“Com a eleição, deve aumentar o consumo no mercado interno, o que dá certa segurança, mas o setor vai estar pressionado. Como não vai exportar muito, deve reduzir um pouco a produção e os preços da carne continuarão altos dentro do Brasil”, analisou Roberto Perosa, presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec).

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