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Importação de trigo deve ser recorde em 2026

calendar_month 04/05/2026
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Importação de trigo deve ser recorde em 2026

Crédito da imagem: — Foto: Valor

O Brasil é historicamente dependente daimportaçãodetrigoe neste ano terá de recorrer ainda mais ao cereal do exterior. Uma das principais razões é que a produção nacional deve ter forte queda. O resultado é que o país precisará importar o maior volume detrigode sua história, de acordo com especialistas.

A consultoria Safras & Mercado estimaimportaçãode 8,2 milhões de toneladas no ciclo 2026/27, superando o recorde de 7,1 milhões de toneladas na temporada 2006/07. A TF Consultoria Agroeconômica também prevêimportaçãorecorde, mas em um nível menor, estimado entre 6,7 milhões e 8 milhões de toneladas.

Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a produção brasileira deve recuar 16% na atual temporada em relação à safra anterior, para 6,6 milhões de toneladas. Bem abaixo da demanda estimada em 13,305 milhões de toneladas detrigodestinadas à moagem.

A combinação entre menor oferta interna e demanda aquecida amplia a dependência dotrigoestrangeiro. “O Brasil é estruturalmente um importador detrigo”, afirma o analista da Safras & Mercado, Elcio Bento. E, “se produzimos menos, precisamos importar mais”, acrescenta.

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O recuo na produção é resultado de uma combinação de fatores, como problemas climáticos, custos elevados e desestímulo ao produtor. “O setor agrícola está endividado, e otrigoperdeu competitividade com a queda dos preços internacionais, o que desestimula o plantio”, afirma Bento.

Em 2025, os contratos futuros detrigorecuaram na bolsa de Chicago durante boa arte do ano. Em 2026, há um movimento de recuperação, com alta de quase 19%, segundo o Valor Data.

Na avaliação de Eduardo Bulgarelli, diretor de trading da Bunge, o aumento das importações também segue uma lógica de mercado. “O aumento das importações é um movimento natural, especialmente na entressafra, quando a disponibilidade doméstica é mais restrita. Otrigoimportado ganha relevância para garantir a cobertura física dos moinhos até a entrada da nova safra e assegurar o abastecimento do mercado”, diz.

Segundo Bulgarelli, os custos de produção contribuem para o cenário de menor produção. “O aumento dos custos, especialmente de fertilizantes, tende a pressionar as margens do produtor, o que pode levar à redução de área plantada e menor investimento em tecnologia. Isso pode impactar tanto o volume quanto a qualidade dotrigoproduzido no Brasil, reforçando a dependência estrutural de importações”, acrescenta.

A capacidade das empresas moageiras de estocartrigotambém é historicamente limitada. “Os moinhos não têm grandes estoques. Trabalham com volumes para um mês, então precisam importar continuamente”, explica o presidente da Associação Brasileira da Indústria doTrigo(Abitrigo) Rubens Barbosa.

A Argentina segue como principal exportadora detrigopara o Brasil, favorecida pela proximidade geográfica e pelo fato de fazer parte do Mercosul — o que significa isenção de imposto —, e pelos custos logísticos mais baixos. “A Argentina é a grande fornecedora detrigodo Brasil e só deixaria de ser em situações muito específicas”, afirma Bento.

Nesta temporada, porém, a qualidade do produto argentino tem gerado preocupação entre os moinhos. “Existe um problema qualitativo na Argentina. Otrigonão tem atendido plenamente às exigências da indústria brasileira, especialmente em proteína”, diz.

Bulgarelli, da Bunge, afirma que apesar de uma safra atual volumosa na Argentina — de cerca de 27,8 milhões de toneladas — , a qualidade dotrigodo país “não atende integralmente às necessidades da indústria brasileira”. Segundo ele, isso tem levado os moinhos a buscarem origens alternativas, “inclusive no Hemisfério Norte, para atender requisitos específicos de qualidade.”

Otrigocomprado de outras origens tem custo maior para os moinhos, já que há imposto de 10% nas importações acima de 750 mil toneladas.

Segundo Luiz Pacheco, da T&F Consultoria Agroeconômica, a qualidade dotrigoargentino está tão baixa que mercado está “parado”. “A maior parte dotrigoproduzido foi tipo ração animal, com 10,5% de proteína. O Brasil precisa de 11,5% no mínimo”, acrescenta.

Outra preocupação do setor detrigoé com a guerra no Oriente Médio, pois o conflito pode impactar a oferta da nova safra detrigoda Argentina, que começa a ser semeada no fim de maio. A Bolsa de Cereais de Buenos Aires já reduziu a projeção para a área plantada detrigono país na temporada 2026/27 para 6,5 milhões de hectares, 3% abaixo da safra passada. Um dos motivos para a queda prevista é o aumento dos custos dos fertilizantes por causa da guerra.

Segundo Rubens Barbosa, isso pode exigir compras adicionais do Brasil entre 1 milhão e 1,5 milhão de toneladas de outras origens. Esse movimento amplia a participação de países como Estados Unidos, Canadá e Rússia, além de manter a relevância de Paraguai e Uruguai dentro do Mercosul.

Para os próximos meses, a avaliação da Bunge é de que o cenário seguirá desafiador. “Até a entrada da nova safra argentina, o Brasil deve depender mais de origens do Hemisfério Norte para suprir a necessidades de qualidade”, afirma Bulgarelli. “O mercado deve operar em um ambiente que exige maior gestão de origens, qualidade e custos para garantir a regularidade no fornecimento.”

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