O Partido dos Trabalhadores (PT) oficializou neste domingo (2) a candidatura à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Será a sétima eleição disputada nas urnas pelo petista desde a redemocratização, com saldo de três vitórias (2002, 2006 e 2022) e três derrotas (1989, 1994 e 1998).
A convenção do partido foi realizada no Expo Center Norte, em São Paulo. Em seu discurso, Lula focou na defesa da democracia no plano interno, da soberania no cenário internacional e no que diz ser uma guerra da "verdade contra a mentira", na tentativa de confrontar o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e a rejeição do legado deixado pelo pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Antes de falar, no entanto, o presidente deu um puxão de orelha na organização do evento por não escalar mulheres para o palanque depois de ser precedido pelo presidente do PT, Edinho Silva; pelo ex-ministro Fernando Haddad, candidato ao governo de São Paulo; e por Geraldo Alckmin (PSB), novamente escolhido como vice da chapa.
Lula, então, passou o microfone à primeira-dama Janja, que fez discurso voltado às políticas públicas focadas nas mulheres, fatia do eleitorado que dá, hoje, maioria ao petista em levantamentos de intenções de voto.
"Por mais que eu quisesse, meu amor, pegar na sua mão e a gente sair aí pelo mundo, a sua missão se torna hoje a minha missão também. Desde 2022, quando você foi eleito. É a missão que a gente tem de caminhar levando o Brasil ao pleno desenvolvimento", disse Janja.
Ao retomar o discurso, o presidente destacou que parte do desafio que terá caso volte a ser eleito é combater a "promiscuidade" dos partidos políticos e os cortes que precisa fazer no Orçamento para irrigar o Fundo Partidário e emendas parlamentares.
Lula afirmou que o Congresso tem usurpado parte das funções do Executivo e indicou que vai ter como uma das metas retomar parte do controle orçamentário perdido progressivamente desde 2015, quando o Planalto ainda tinha a prerrogativa de liberar emendas em forma de barganha política. "Daqui a pouco, qual é o direito que tem o presidente da República? Nenhum!", criticou.
"Eu quero que vocês saibam que a minha quarta Presidência é para mudar muita coisa nesse país. E vai ter briga com a emenda parlamentar, com o papel que hoje tem o Poder Legislativo", destacou Lula.
Em um apanhado de seu primeiro mandato, com destaques para o Pacto Contra o Feminicídio, programas como o Desenrola, Bolsa Família, investimentos em ciência, educação e no SUS, Lula disse ao público que a disputa da campanha é uma "guerra que ainda não começou" e depende do esforço conjunto para divulgar feitos do governo no boca a boca a nível local.
"O que motiva um governo a ganhar as eleições é se o legado dele for merecedor de confiança e de respeito. Quem fez, pode prometer mais. Quem não fez, não tem o que prometer. Essa é a lógica da nossa campanha", resumiu.
Investimentos em Defesa
Um dos destaques do discurso foi a ênfase dada à necessidade de investimentos em defesa. Ao se dirigir aos militantes e a petistas e aliados no palanque, Lula afirmou que a esquerda precisa superar o trauma causado pelos anos de Ditadura Militar e se preocupar com a necessidade de encorpar a indústria militar.
"Eu quero estar preparado para que ninguém invada este país para levar o presidente", disse o petista, lembrando da operação norte-americana que capturou e prendeu o então presidente da Venezuela Nicolás Maduro.
"Eu sei que aqui muita gente tem um trauma por causa dos 23 anos de ditadura militar. Mas o tempo passa, a gente evolui, e precisa saber o seguinte: se a gente não estiver seguro, qualquer dia alguém se mete a besta conosco. E eu quero estar preparado investindo em tecnologia, nas coisas mais modernas. Por que um país do tamanho do Brasil não tem uma fábrica de drones? Como a gente vai controlar 16 mil quilômetros de fronteira a pé?", questionou.
Futuro do partido
Prestes a completar 81 anos, Lula voltou a dizer que se sente bem, com rotina de exercícios constante e quadro de saúde mais estável do que em mandatos anteriores. "Queridos companheiros, eu estou inteiraço", brincou ao dizer que se sente jovial por manter uma "causa" como motivação.
Apesar disso, ele deu pistas sobre o que pensa para o futuro do PT. O presidente disse que, após um novo mandato, entregará o partido nas mãos do próximo líder, em um gesto direcionado primeiramente a Haddad e depois a outros políticos presentes, como o governador Rafael Fonteles, do Piauí.
Lula disse ainda que seu ato final não será na versão "Lulinha paz e amor", slogan que marcou a primeira vitória, em 2002, mas um "Lulinha porreta".
O petista também fez um breve mea culpa sobre mandatos anteriores, dizendo ter feito o que pôde. "Peço desculpas pelos erros que cometi, pelas coisas que não fiz. Mas quero dizer que o nosso governo está dando armas e argumentos que nunca tiveram na história nesse país", afirmou.
Campanha formal
Embora a convenção cumpra a etapa protocolar de homologação da chapa, a coordenação da campanha considera o ato de 16 de agosto como a verdadeira largada da disputa eleitoral. Lá, a expectativa é reunir cerca de 30 mil pessoas no Estádio 1º de Maio, na Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, cidade onde Lula iniciou sua trajetória sindical e política.
A data coincide com o primeiro dia autorizado pela Justiça Eleitoral para a realização de campanhas de rua e da propaganda eleitoral.
A escolha da Vila Euclides reforça o simbolismo da campanha petista. Foi no estádio, durante as greves do ABC paulista no fim da década de 1970, que Lula se consolidou como liderança sindical nacional, trajetória que culminou na fundação do PT e, posteriormente, em seus mandatos na Presidência da República.
Convenção Nacional
O lançamento oficial da chapa de Lula e Alckmin foi formalizado em caráter privado, restrito a autoridades partidárias. Além de PT e PSB, estão na base de apoio à reeleição PCdoB e PV, que compõem a Federação Brasil da Esperança, e também Psol, PSB e Rede Sustentabilidade.
Em fala durante o "esquenta" da live que precedeu a convenção, o presidente do PT, Edinho Silva, conclamou a militância a abraçar a estratégia do partido de buscar divulgar no boca a boca feitos do governo, como o Desenrola e Pé-de-Meia, além de obras públicas e programas de benefício a empreendedores e trabalhadores de aplicativo.
"Nós vamos fazer a disputa nos territórios. Vamos identificar em cada cidade do Brasil, em cada estado, aquilo que o presidente Lula fez para mudar a vida do povo [...] E essa disputa só vai se dar nos estados se cada militante, cada companheira e companheiro se organizar na sua cidade, na sua comunidade, no seu bairro e conversar com sua família e seus vizinhos", orientou Edinho.
As participações de autoridades foram intercaladas com vídeos da campanha, jingles e anúncios do governo. Falaram figuras como Benedita da Silva, candidata ao Senado pelo Rio; a ministra das Mulheres, Márcia Lopes, e o ministro da Secretaria-Geral, Guilherme Boulos; o senador Rogério Carvalho (PT-SE); o deputado Zeca Dirceu (PT-PR); o presidente do PDT, Carlos Lupi; e as ex-ministras Simone Tebet e Marina Silva, dupla que disputará o Senado por São Paulo.
Além de estimular o público a pedir votos a Lula, as falas giraram em torno do mote da campanha: a defesa da democracia e da soberania, com críticas à família Bolsonaro e às tentativas de interferência dos EUA nas eleições.
"O Lula representa hoje o anti-Trump, o anti-guerra, o homem da paz, que quer defender os excluídos. E hoje no Brasil a representação dessa direita no mundo está encarnada na família Bolsonaro", disse Carlos Lupi.
O PT fechou a fila das principais convenções presidenciais, que já haviam oficializado Flávio Bolsonaro como candidato pelo PL, Ronaldo Caiado pelo PSD, Romeu Zema pelo Novo e Renan Santos pelo Missão durante a última semana.