A crise de endividamento no campo parece longe do fim. No primeiro trimestre de 2026, 539 empresas do setor agropecuário estavam em recuperação judicial, um aumento de 58% em comparação a igual intervalo do ano passado. Em relação ao quarto trimestre de 2025, o avanço foi de 9,3%. Os dados fazem parte de levantamento do Monitor RGF, da consultoria RGF&Associados.
O cenário confirma a tendência de alta antecipada por analistas. E, pelo menos no curto prazo, não há sinal de mudança no horizonte, uma vez que os juros seguem elevados, as margens do setor apertadas e o acesso ao crédito é restrito, observam especialistas ouvidos peloValor. Eles acrescentam que agora há um agravante: a guerra no Oriente Médio eleva ainda mais os custos, pois afetou os preços de insumos fundamentais para a produção, como os fertilizantes e o diesel.
O impacto do conflito, inclusive, já está entre os motivos apresentados para os novos pedidos de recuperação judicial que estão sendo protocolados por companhias do agronegócio na Justiça. Esse efeito deve aparecer a partir dos resultados do segundo trimestre do ano, conforme análise da Neot, plataforma de monitoramento de dados sobre insolvência.
“O fechamento do Estreito de Ormuz já apareceu entre as justificativas para pedidos de recuperação judicial. É uma das causas para que [o setor] não honrasse os pagamentos financeiros”, diz Julio Moretti, CEO da Neot. O estreito, bloqueado, em decorrência da guerra, é uma das principais rotas de transporte de petróleo e fertilizantes do mundo.
Rodrigo Gallegos, sócio da RGF, afirma que os efeitos do conflito no Oriente Médio devem aparecer não só nos pedidos, mas também nas recuperações judiciais que serão deferidas ainda neste ano. No Monitor RGF, a categoria agropecuária contempla as empresas — e produtores rurais pessoas jurídicas — com atividades “dentro da porteira”.
“Quando começou a guerra na Ucrânia, muito rapidamente os produtores começaram a colocar isso nas recuperações judiciais. Em cerca de um ou dois trimestres após o início do conflito a gente já conseguiu pegar [essa justificativa nas recuperações judiciais deferidas], dentro do próprio ano. Porque eles [produtores] citam que o preço do fertilizante aumentou de uma forma inesperada”, lembra Gallegos.
Para o aumento de quase 60% no número de recuperações judiciais do setor, o especialista da RGF acredita que os principais motivos foram o patamar ainda elevado da taxa básica de juros (Selic) e o nível de endividamento. “O custo para financiar a safra continua sendo o aspecto fundamental”, avalia ele.
Apesar dos diferentes níveis de governança e portes das empresas do setor, Gallegos explica que, na agropecuária em geral, há diversos casos de produtores que demoram demais para negociar os problemas financeiros, à espera de melhoria dos resultados de campo na safra seguinte.
Isso contribuiu para que a inadimplência se tornasse uma “bola de neve” para muitos.
Ao mesmo tempo, cresce a percepção de risco pelos bancos, que acabam exigindo mais garantias para a concessão de crédito.
O cultivo de soja permanece na liderança entre os segmentos mais afetados. Das 539 companhias que estavam em recuperação judicial no primeiro trimestre deste ano, 243 são de produção da oleaginosa. Na sequência estão as empresas de criação de bovinos de corte, com 89, e de cultivo de cana-de-açúcar, com 49, de acordo com a RGF.
O Grupo Diamante do Tocantins foi um dos que tiveram o pedido de recuperação judicial deferido ainda no primeiro trimestre, no dia 25 de março.
A companhia atua na produção, beneficiamento e comercialização de grãos, com destaque para arroz, soja e feijão.
Em nota, o grupo informa que recorreu à proteção contra os credores diante de dificuldades que surgiram após problemas causados pelo clima.
O passivo total é estimado em cerca de R$ 500 milhões.
Entre os principais credores estão Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e Fertilizantes Tocantins.
“O governo está tentando encontrar soluções para o agro, mas enquanto ainda estiver com essas taxas de juros e os empresários como um todo com dificuldade para conseguir crédito, vai continuar havendo recuperações judiciais”, estima Gallegos, da RGF.
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