Com mais cidadãos e cidadãs festejando 70, 80 e 90 anos de idade, com saúde e bem-estar, a longevidade humana se torna enorme conquista coletiva, reunindo diversas gerações em ações conjuntas pela melhoria da qualidade de vida, superação de dificuldades coletivas e convívio familiar saudável, mas que também dependem de políticas públicas de saúde, moradia, transporte, lazer e trabalho. Para entender essa evolução humana, basta lembrar a movimentação de ruas em bairro popular, numas das milhares de cidades brasileiras. Em local semelhante, há duas décadas, os ruídos mais ouvidos seriam de crianças brincando e jogando bola na calçada. Hoje, o som mais frequente talvez seja de uma avó chamando o neto da janela, o som de vizinho de 75 anos regando as plantas ou o de tia aposentada que segue trabalhando meio período, porque ainda tem disposição para fazer alguma coisa e também contas a pagar. Essa transformação silenciosa das comunidades urbanas e rurais do País, revela fenômeno bem maior e mais importante para toda a população, o que nem todos perceberam até agora. É a realidade de que o Brasil está envelhecendo e num ritmo que poucos países viveram até esse momento.
Prova disso foi a evolução dos números que mudaram o retrato da população nacional. Em 2023, pela primeira vez o Brasil passou a ter mais pessoas com 70 anos ou mais, do que crianças pequenas. Para dimensionar a mudança, em 1950 havia 4,3 crianças de zero a quatro anos para cada pessoa com 60 anos ou mais. A projeção para 2100 inverte a conta, com 10 idosos para cada criança dessa faixa etária. A expectativa de vida dos brasileiros acompanha essa curva. Era de somente 48,5 anos de idade em 1950, chegou a 76 em 2024 e deve alcançar 87 até o fim do século. Dessa forma, quem nasceu em meados do século passado dificilmente imaginaria que seus netos viveriam quase três décadas a mais do que eles. Entre os desafios dessa evolução da sociedade, está viver mais e fazer da velhice motivo de celebrações. Ao falar de envelhecimento, é comum ouvir previsões sombrias, como se um país com mais idosos estivesse fadado ao colapso coletivo e à infelicidade dessas pessoas.
Na prática, segundo especialistas, devemos preferir outros sentidos ou entendimentos. Devemos entender que viver mais significa que menos gente morre cedo, que doenças antes fatais passaram a ter tratamento e que saneamento, vacinas e atendimento básico chegaram a mais lares. É um resultado ou sentimento coletivo, construído ao longo de gerações. De acordo com estudiosos, há distinção útil, como integrar sociedade apenas envelhecida e/ou sociedade de longevidade. A diferença está em como cada país ou sociedade trata seus mais velhos, se como custo a administrar ou como força ou vantagem a aproveitar. As evidências são de que a segunda opção funciona. Dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento (OCDE), indicam que na Europa, cerca de 90% do aumento no número de empregados na última década veio de pessoas com mais de 50 anos. Ao contrário do que muita gente supõe, os mais velhos não esvaziam o mercado de trabalho, mas ajudam a sustentá-lo. Isso porque não basta somar anos, é preciso somar vida e é aí que está o ponto central do envelhecimento. Importa menos quantos anos a pessoa vai viver e mais como vai vivê-los. É o tempo vivido com saúde, autonomia e vontade de participar da vida em comunidade.
*O autor é deputado federal pelo Paraná e ex-chefe da Casa Civil do Governo do Estado
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